Ainda sem solução
Anos após promessa de investimentos, frustração permanece
Moradores dos bairros Pestano e Getúlio Vargas apontam questões essenciais como principais problemas
O financiamento não saiu do papel e as promessas não caíram no esquecimento da população. Após quatro anos do anúncio de um investimento de 50 milhões de dólares para a transformação dos bairros Getúlio Vargas e Pestano e da frustração do projeto, os moradores seguem convivendo com os mesmos problemas: saneamento precário, carência de iluminação pública e falta de pavimentação. E veem os problemas longe de serem solucionados.
A costureira Rosana Nunes, 46, mora há 27 anos no Getúlio Vargas e conta que os anos passam e a situação segue a mesma. Na rua onde mora, os portões são frente a um esgoto a céu aberto onde, além do mal cheiro, muitos animais transitam. Para lidar com as condições, a própria comunidade construiu uma ponte de madeira para que fosse possível acesso até a rua. Rosana não esconde o medo quanto à propagação de doenças vindas destes locais, aos cinco netos que residem com ela.
"Estamos desassistidos. É falta de limpeza, aqui mesmo passa rato toda hora e tem muitos mosquitos por conta das valetas abertas bem na calçada de casa. Eu tenho meus netos pequenos em casa e tenho medo das doenças. Deveriam dar atenção principalmente nisso. As pessoas aqui da rua que limpam as valetas. Todos fizeram pontes para poder sair sem pisar dentro. Quando chove a rua aqui enche de água", relata a costureira.
A iluminação pública também é alvo constante de bronca da comunidade. Rosana diz que em frente à sua casa o poste não funcionaria há anos e que os assaltos aumentaram desde então. E completa a lista de reclamações apontado a rua esburacada e os alagamentos causados pela falta de escoamento. "Todos esqueceram da gente. Máquina para ajeitar a rua só passa perto das eleições, depois é barro e alagamento."
Transitando por ambos os bairros, relatos de moradores que preferiram não se identificar, afirmam que é comum vizinhos ou donos de comércios locais se unirem para a compra de aterro para a manutenção das vias. Segundo a estudante e moradora do Pestano, Marie Chagas, os relatos fazem parte do cotidiano. "As pessoas do bairro ajudam o próprio bairro, sendo que seria um serviço para ser feito pelo poder público e as pessoas, que muitas vezes nem possuem dinheiro, se veem obrigadas a fazer para terem o mínimo possível para se locomover", conta.
Ao falar sobre a expectativa criada na comunidade de reestruturação do bairro com o investimento prometido há quase quatro anos, a moradora diz que há uma decepção geral entre quem esperava um melhor local para morar. "A gente fica frustrado e bem triste com isso. São só promessas, desde 2017 nada mudou, pelo menos para nós."
Investimentos futuros ainda no papel
Segundo a secretaria de Planejamento e Gestão, o município realizou a pavimentação de algumas vias do Pestano e Getúlio Vargas por meio do Financiamento à Infraestrutura e Saneamento (Finisa), do governo federal. A prefeitura cita como um dos pontos que recebeu melhorias a rua 10, do Pestano, com asfalto e sinalização em 730 metros de extensão com recursos de mais de R$ 354 mil, em julho do ano passado, através do programa Obra no Bairro.
O secretário Roberto Ramalho, responsável pela pasta, diz haver planos futuros para estes locais e que a prefeitura está realizando estudos para implementação do programa Obra no Bairro 2. Segundo ele, o objetivo é levar melhorias para as regiões nos mesmos moldes do que estaria sendo feito na primeira etapa do projeto iniciado em 2019.
Relembre
Em agosto de 2017 a prefeitura anunciou negociação com o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). A entidade, que financia projetos de infraestrutura, educação, saúde, saneamento, produção rural e preservação da natureza destinaria 50 milhões de dólares (cerca de R$160 milhões na época ou R$ 288,5 milhões na cotação atual). Do total, 30 milhões de dólares seriam destinados à urbanização dos bairros Getúlio Vargas e Pestano.
Os outros 20 milhões seriam aplicados na zona rural. O valor seria revertido à pavimentação de 18 quilômetros de ruas e estradas, requalificação de outros 300 quilômetros de acessos vicinais, construção de pontes, implantação de redes de água, patrulhas agrícolas, recomposição de mata nativa e construção de um parque com 76 hectares às margens da barragem Santa Bárbara.
Em dezembro de 2018, após o Ministério da Fazenda mudar a fórmula de cálculo para pagamento de empréstimos contraídos pelos municípios, a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) alterou o critério de avaliação do nível de endividamento. Com isso, Pelotas caiu da faixa de capacidade de endividamento nas proporções pretendidas junto ao Fonplata e foi suspendeu o projeto.
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